Encenador Rui Germano prepara "Rosa Esperança” em Rio Maior.
Primeiro foi a mãe. Ultrapassou um cancro da mama há 26 anos. Depois a amiga Cláudia partiu muito cedo. “Rosa Esperança”, uma peça de teatro encenada por Rui Germano, conta histórias reais de sete mulheres que enfrentaram a doença e vai ser apresentada em Rio Maior.
Um jovem encenador de Rio Maior, advogado de profissão, está a preparar um espectáculo de teatro baseado em histórias reais de mulheres que enfrentaram o cancro da mama. Rui Germano, 37 anos, é o “comandante”, como lhe chamam nos ensaios que decorrem no Cine-Teatro de Rio Maior aos domingos. Elas são sete mulheres com histórias diferentes, mas com uma coisa em comum: o cancro da mama.
O projecto do grupo “Quem não tem cão” (http://equemnaotemcao.blogspot.com/) arrancou em Outubro e vai estrear a 4 de Abril na cidade. Qualquer semelhança com a realidade é intencional. A base é real, mas as experiências estão baralhadas propositadamente. “Realidade e a ficção estão de tal forma embrulhadas que nós próprios já temos dificuldade em perceber se isto foi mesmo assim ou não”, diz o encenador que reuniu as histórias de “Rosa Esperança”. Rosa, nome de mulher e da luta contra o cancro da mama. “Esperança porque é aquilo que todas as mulheres têm quando iniciam este processo”, diz o encenador. A história relata a evolução da doença. A descoberta, a ida ao médico, o medo do diagnóstico, o internamento, a cirurgia e os tratamentos. “Não há aqui traição, nem nem amor, nem suspense”, avisa o encenador.
O texto ainda não está pronto. É um processo em aberto. Uma espécie de laboratório. Todas as semanas há alguém que propõe uma alteração. “A doença fez-me renovar o guarda-roupa”, ensaia Carla Pedro, uma jornalista de 40 anos, residente em Lisboa, a quem o cancro bateu a porta. “O que aconteceu comigo foi que me apercebi da minha mortalidade. E além disso engordei 18 quilos por causa dos tratamentos e tive mesmo que comprar roupa”, diz arrancando gargalhadas entre o grupo.
O humor ajuda a afastar as recordações de um processo doloroso. Como a quimioterapia. “Quando me avisaram que me caíria o cabelo foi o meu marido que disse que me cortava o cabelo. Virei-me para a banheira. Chorava eu e chorava ele”, relata Lina Pereira, 43 anos, residente em Alverca. “As pessoas dizem-me: Lina estás mais bonita do que eras antes”. Ouvem-se frases soltas. De sorrir. E chorar. Saem da peça. Mas são verdades da vida real. “Hoje é um dia, amanhã é outro”.
As mulheres são bancárias, professoras, esteticistas, jornalistas e empresárias. De Rio maior, de Alcobaça, Lisboa e Ovar. Conheceram-se num blog (http://superglamorosas.blogspot.com/) criado por uma amiga do encenador que acabou por falecer. Cristina Jordão, 41 anos, bloguista, também viveu de perto a doença da amiga e ajudou a reunir o grupo. “Elas não são actrizes nem querem ser actrizes. São mulheres normais que têm em comum o facto de terem tido cancro da mama”, diz Rui Germano. Quem não faz parte do elenco participa de outra forma.
A Claúdia, os amigos nunca lhe levaram flores. Compravam-lhes antes vernizes das cores preferidas, recorda Cristina Jordão. Há uns silêncios, que só elas percebem, uns sorrisos e uma lágrima no olho que é mais importante que qualquer palavra. “Essa cumplicidade, aproximação e generosidade é que é importante”. E o que era um projecto só para mulheres com cancro da mama, já tem a participação de alguns maridos. “Os homens participam “isto de uma forma silenciosa. O cancro da mama não é uma doença individual. É uma doença da família”, explica o encenador que há 26 anos acompanhou o processo de doença da mãe (ver caixa).
O projecto não acaba com a peça. Há uma ideia para um livro e uma digressão que o grupo quer que aconteça, tal como um ciclo de sessões fotográficas. No quadro final elas vão ser vestidas por sete costureiros portugueses. “Elas querem que sejam homens”, anuncia Rui Germano a quem interessa passar a mensagem destas mulheres utilizando o teatro.
Cacilda ou uma história de sucesso.
Foi há 26 anos. Em Agosto. Cacilda Germano sentiu um nódulo e procurou o médico. Encaminharam-na para o IPO. “Na altura isso era sinónimo de cancro e de morte”, diz Cacilda Germano, hoje com 68 anos. Menos de quatro meses depois estava a ser operada. Mas a intervenção não foi fácil. A família foi o porto de abrigo. Mais de duas décadas depois está bem de saúde para contar a história. A empresária do ramo avícola, residente em Rio Maior, é a mãe do encenador de “Rosa Esperança”. E foi literalmente um dos motores da ideia.
“Estão a ser muito falados casos envolvendo figuras públicas. Diz-se que o cancro da mama é uma doença, mas que é uma questão de tempo e que se ultrapassa, mas infelizmente não é assim. Há pessoas que não conseguem ultrapassar. Felizmente é uma minoria”, ressalva Rui Germano que acompanhou o processo de uma amiga que não conseguiu vencer a doença. “O cancro da mama não é uma constipação”.