sábado, 5 de setembro de 2009

Depressão pós-câncer?

Olá amigas e amigos,

A resposta positiva à pergunta do título pode parecer estranha, sobretudo quando se sabe que as células tortas se foram. Na grande rede há pouquíssima informação a respeito do assunto, mas conversando aqui e ali com pessoas que lidam diretamente com a doença fiquei sabendo que é possível a instalação de um quadro depressivo ao fim do tratamento. O normal, ou melhor, o mais comum, é o paciente de câncer apresentar sinais de depressão durante o tratamento. A descoberta do tumor, os exames, as consultas médicas, os procedimentos cirúrgicos, os tratamentos, as dúvidas com relação à eficácia dos métodos, os efeitos das drogas utilizadas, as angústias pessoais etc etc etc. Tudo isso e mais um pouco minam a resistência do doente de câncer e o fazem entrar no mundo nebuloso da depressão.

No meu caso, posso dizer que vivi alguns períodos enevoados ao longo da quimioterapia, que terminou em setembro de 2008. Ainda assim o ano foi de intensa atividade e muitas alegrias. Os quatro primeiros meses de 2009 também foram difíceis, com uma bruma forte. Em maio meu ânimo renovou-se e no fim do mês submeti-me à segunda cirurgia. E, como sabem, a recuperação foi bastante lenta. Hoje, passados três meses (e quase um ano do término da quimio), percebo que este último período teve um sabor de recolhimento. Estive mais dentro do que fora de casa, principalmente metida com arrumações de armários, estantes e etc. Mais calada e menos afeita à escrita. Visitante quase silenciosa dos blogs amigos. Mais triste, menos feliz.

Vocês certamente estão se perguntando: como esta mulher pode estar assim mesmo sabendo que tudo terminou bem? Há uma explicação plausível. Quando se está na luta pela vida (não pela sobrevivência) os dias se tornam plenos e ensolarados, sua agenda fica lotada (compromissos com médicos, exames, tratamentos, almoços, jantares, chás, festas, passeios, cinema, teatro, cursos...), seus prováveis últimos dias de vida precisam ser encantadores. E podem ser, os meus foram. Os amigos ao redor, a família presente. Uma maravilha os mimos recebidos.

Passada a euforia (e correria) da luta contra o câncer e em seguida a descoberta de que se está livre dele (de que não há sinais evidentes), juntamente com um período pós-cirúrgico, sobrevem, então, um cansaço físico (mental e emocional também), uma vontade de fazer nada, um sentimento de abandono (de estar abandonada e de abandonar-se) e começa-se (ou recomeça-se) a luta pela sobrevivência. Aquela do dia-a-dia, com pouco ânimo, apenas para manter-se minimamente viva. A agenda praticamente em branco, os amigos e familiares redirecionam o foco para suas próprias vidas, afinal você agora volta a fazer parte do mundo das pessoas saudáveis. Só você sabe que suas forças ainda não estão totalmente reconstituídas, que o carinho da atenção e dos mimos recebidos foram e são (ainda são) muito importantes, porém você compreende que a vida continua, ela não para nunca. Nesse momento você nasce mais uma vez. E a dor sentida tem a mesma intensidade (talvez um pouco mais) do primeiro nascimento.

Como retomar a vida agora? Certamente é uma outra vida. Mas qual exatamente? E as pendências da vida anterior, que se mantiveram em suspensão (ou nem tanto)? Vale a pena continuar investindo naquele seu relacionamento? Será possível começar um outro? Estar só é uma boa opção? Filhos? (Melhor não tê-los/ mas se não tê-los, como sabê-los?, já dizia o poeta. Cito de memória). Como se mantém esta relação? O que precisa mudar para melhorar? E a questão profissional? Satisfaz, é prazerosa e rentável do ponto de vista financeiro? ............ Afinal, o que você quer ser quando crescer?

Junte-se a isto o fator climático, bastante relevante para quem vive no Rio de Janeiro. O verão foi chuvoso; o inverno, longo, frio e nebuloso. Em termos gerais, um 2009 à mercê da gripe suína; da crise econômica; da politicagem dos políticos, em campanha pré-eleitoral (2010). Deve-se incluir nessa breve lista a desfaçatez do governador do estado do Rio de Janeiro em aviltar mais uma vez os professores da rede estadual. (Sou professora, não se esqueçam, e faço parte dessa rede).

Aí estão alguns dos ingredientes da depressão pós-câncer.

Setembro chegou, com lua crescente, céu azul e sol. Emagreci um pouco, os cabelos estão mais crescidos (ainda enrolados), minhas pernas estão quase normais e depiladas (não aguentei e passei a "gilete", por enquanto está tudo ok), por recomendação médica dedico-me à musculação, minha irmã faz aniversário no dia 7, a outra no dia 21, minhas amigas portuguesas voltam aos palcos com a peça Rosa, Esperança, a partir do dia 19, e eu decidi sair em férias.

E o Rio de Janeiro é a cidade mais feliz do mundo (segundo pesquisa da Forbes)!!!!!!!!!!! (Ainda exportamos estereótipos...)

Beijos (um especial para a Laura, a menina do sorriso azul)

19 comentários:

justme disse...

Olá May, não tendo sofrido de câncer, não te posso sei do que falas, mas compreendo porque tendo passado por outras situações graves, tanto a nível físico como emocional, sei como nos esgota a angústia do esperar, saber o que vem aí,sei que nessas alturas (enquanto lutamos com unhas e dentes) não sentimos o cansaço, mas à medida em as coisas vão passando adrenalina também se vai e o cansaço começa alojar-se no nosso corpo e no nosso espiríto. É então que começa a luta de não deixarmos que ele nos vença, até porque sabemos que continuamos a saber que contamos com a nossa família e com os nossos amigos,
não é? outra vantagem ao longo de uma viajem difícil é que descobrimos realmente que nos ama porque os outros, os cuscos, os hipócritas desaparecem. Um beijão grande e vai mesmo nessa viajem que projectas porque o sol faz-nos maravilhas.Adorei o teu regresso.

justme disse...

Claro que deves ter percebido que era "não te posso dizer que" , "até porque sabemos que contamos com..." e "quem nos ama". Desculpa, tenho andado um bocado trapalhona por causa das dores de cabeça, mas aprentemente são só as enxaquecas. Mais um beijinho porque carinho nunca é demais :)

Madalena disse...

Olá May! Obrigada por este post que me ajuda a compreender o que se está a passar comigo. Eu, parava, não tinha percebido, que esta coisa das arrumações também tinha a ver com isso. também acho que a maioria das pessoas já não leva a sério os meus cansaços, as minhas dores, porque agora já passou! Passou? O quê? Para mim ainda está tudo a começar. A luta continua, mas as parcerias abrandam a sua acção.... Beijinhos muito grandes!Obrigada uma vez mais.

Lina Querubim disse...

Oi May

Acho que parte de nós passamos por todas essas situações umas conseguem levar as coisas melhoras e outras nem por isso e ás vezes é necessário atenção médica na parte psicológia.
Eu também assim sempre cansada e sem vontade de fazer o dia-a-dia mas aos poucos vamos recuperando espero :p ainda anda nessa fase e vá fez um ano de cirurgia e quimio. Só no final de Outubro faz um ano que terminei a radio.

Foi bom você falar sobre este assunto esclarecer que o pós tratamentos nos deixam asim... beijokas deste lado e tudo de bom! :))))

Ahhhhh acho que não deveria tirar os pêlos as pernas com gillete não faz bem!

Lina Querubim disse...

* ando nessa fase e vai fazer um ano



Aiiiiiiiiiiiii a troca de palavras isto ainda continuaaaaaaaaaa

IsaLenca disse...

Oi Maisa! Como deve saber eu também não tive cancro mas penso que todos passamos por essa angustia, por esse balanço de prós e contras depois de termos apanhado um grande susto ou um grande pontapé da vida! Depois de tanta força dispendida- e que tu como vencedora desta doença tiveste de utilizar bastante- vem essa sensação: agora abriste os olhos, tiveste tempo para veres e reveres a tua vida e apercebeste-te de quem e do que é realmente Essencial. E agora estás na fase do Renascimento, como dizes, e é bom teresa estas férias para então poderes decidir por esta tua nova vida: agora já sabes a ordem das coisas: o que é essencial, o que é importante e o que é acessório.
O importante mesmo é saberes que agora tudo irá correr bem, continuares com essa força e determinação para seguir em frente. A vida continua mas agora numa nova perspectiva.
Quem sabe se uma volta por Portugal não iria ajudar :) Cáestaremos para te mimar...como dizes os mimos sabem sempre bem...tens é de conhecer os mimos das Portuguesas Amigas que arranjaste através deste teu blogue.
Um grande beijo

Nela disse...

Maysa, a dita "vida normal" é que é o grande desafio que se nos coloca depois do cancro. E um quadro depressivo parece-me muito normal/provável/possível depois de uma tão grande batalha.
Este post afigura-se-me o fim desse quadro! Quando se fala, se analisa, se tenta entender, já começou a passar.

Aos poucos, a pessoa começa a se levantar, a procurar novos focos e o sol volta a brilhar.

Boas férias e tudo a correr bem.

Um beijinho

de Bizet disse...

Como te compreendo bem.
Um abraço amigo e umas boas férias.
Carmen.

Ana Maria Santeiro disse...

agora, pense só nas férias.

Cristina J. disse...

Olá May...

Penso que as meninas que comentaram antes disseram o essencial.
Neste momento estás a analisar prioridades depois do regresso da luta contra o cancro. E as dúvidas estão instaladas, não é?

Devo dizer que não sendo doente de cancro não posso alvitrar sobre a normalidade deste estado ou nãono pós tratamento, mas posso dizer-te que é um quadro comum a muitas pessoas, quando as coisas começam a tomar uma tonalidade diferente... quando já não têm o poder emocional do passado (recente ou não).

Nestes momentos um afastamento do nosso espaço é bom. Abre novas perspectivas. A decisão de umas férias pode ajudar muito.

Pena que não seja em Portugal... seria óptimo dar-te um abraço amigo. ;o)

Bjinhos e que o manto nebuloso que está neste momento no seu horizonte de devaneça rápido

carla ervilha disse...

Tão bonito o teu texto, May. Revi-me em tantas coisas... Dá essa paz a ti mesma, deixa-te levar pela sensação boa de estares saudável e o resto... o resto vem dia após dia. Aquela serenidade que precisamos. Eu sinto-me serena quando te leio :) Um grande beijo de parabéns à tua irmã e outro para ti* :)

Natty disse...

May, não tendo sido eu uma doente de cancro, entendo que é muito complicado e desgastante para quem passou ou passa por essa maldita doença. E é posteriormente um arrastar de situações indesejaveis como descreveu, mas o importante, é que lentamente vai recuperando e voltando á sua vida normal se Deus quiser. May, com esta VITÓRIA, vai naturalmente ter uma outra perspectiva de vida e decerto estabelecer prioridades e é isso que lhe vai dar ainda mais vontade de viver.
Vá de férias, aproveite a preciosidade da VIDA que é um TESOURO!! no Brasil ou em qualquer parte o que importa mesmo é VIVER com SAÚDE.
UM GRANDE XI-CORAÇÃO recheado de CARINHO.
Natty

Carecaloira disse...

Como te compreendo....

Beijocas

Lia disse...

Olá Maysa,
gosto de saber que te encontras bem!

Bonito e verdadeiro o teu texto - dá que pensar - aproveita as férias e descansa!

Um beijo da amiga do lado de cá.

Quem Não Tem Cão disse...

A vida continua a ser o maior desafio de todos...
Beijo carinhoso!

Natty disse...

May, passei para deixar miminhos e espero que tudo esteja bem.
Xi coração bem apertadinho.
Natty

Mimas disse...

May, já não passava aqui há algum tempo, falaha minha, espero que esteja tudo bem contigo!

Beijo grande

Mauricio Anias disse...

engraçado encontrar seu blog eu estou terminando meu tratamento de linfoma tenho um blog tambem com o mesmo layout que o seu ... e estou em depressao ... meu relacionamento esta afundando, minha financas estouradas , nao consigo sorrir e qdo me manifesto acabo machucando as pessoas.. ser o soldadinho de chumbo durante o tratamento cansa e agora que estou curado nao sinto vontade de viver paradoxo nao ??

Anônimo disse...

Há um ano recebi o diagnóstico de um linfoma raro na cabeça e fiz cirurgia com sucesso e após quimioterapia por seis meses. O tratamento deu certo e estou livre de tumores. Durante as fases críticas eu estava forte que nem uma rocha, mas agora não sei como recomeçar. Estou confusa, desesperada, com medo e nada tem dado certo. Sou uma pessoa forte que tem muita fé, mas cada coisa que não dá certo me deixa arrasada e sem forças para enfrentar os desafios. Tenho me comparado com uma árvore que suporta um furacão, mas sai dele com fragilidade e agora qualquer vento ou brisa lhe causa mais estragos que os causados pelo furacão. Assim como a árvore que precisa de tempo para recuperar a vitalidade também preciso dar tempo ao tempo, mas esta fase está muito mais difícil do que eu pensava. Ler isso me fez sentir normal. Obrigada.