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domingo, 4 de maio de 2008

Relembrando Luther King

Em 1968, eu tinha dez anos e já havia lido o Dom Quixote, de Cervantes. Martin Luther King afirmava "I have a dream". Meu sonho, como o de toda menina, era crescer rápido, mas meu desejo não era chegar à maioridade, eu queria ter logo 40, 50 anos. Acreditava que nessa faixa etária alcançaria a sabedoria. E ao mesmo tempo morria de vontade de embarcar numa máquina do tempo rumo ao ... passado! Paradoxal? Sim e não. Nossa caixa de sonhos comporta tantos paradoxos. Outro exemplo: já quis ser jornalista e piloto de fórmula um. Ahahahaha. Hoje nem mesmo dirijo. Por pura comodidade.
Mas foi nessa idade que comecei a perceber as desigualdades, as diferenças marcadas pela exclusão, pelo desrespeito, pelo preconceito, pela intolerância.

Dom Quixote e Luther King sonharam. O primeiro permanece no sonho, o segundo foi impedido de ver o seu (quase) realizar-se. Revendo os quarenta anos de 1968, percebo que alguns sonhos alavancam nosso caminhar, outros iluminam o percurso, uns se concretizam, muitos não. Hoje vivemos num
tempo-espaço comprimidos, tudo ao mesmo tempo-agora-em todo lugar. Ainda é possível sonhar?

Aos 50 anos, compreendo que a tal sabedoria manifesta-se com uma certa lentidão (o que é bom, assim ainda tenho muito o que aprender) e como o ativista negro, sem a pretensão de me comparar a ele, posso dizer: eu tenho um sonho. Construído com a força das palavras-ações de Luther King, de Graciliano Ramos, de Paulo Freire e de algumas outras vozes e transformado em sementes lançadas nas minhas salas de aula. Certamente não o verei realizado, mas isto não importa muito. O mundo continua a caminhar, os passos estão menos desequilibrados, as pessoas se conscientizando cada vez mais... Otimista, eu? Talvez.